{"id":1536,"date":"2024-09-28T12:11:29","date_gmt":"2024-09-28T12:11:29","guid":{"rendered":"https:\/\/radiocomercial.cv\/?p=1536"},"modified":"2024-09-28T12:11:30","modified_gmt":"2024-09-28T12:11:30","slug":"cachupa-a-solta-pelas-ruas-de-cabo-verde-todos-os-fins-de-semana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radiocomercial.cv\/?p=1536","title":{"rendered":"Cachupa \u00e0 solta pelas ruas de Cabo Verde, todos os fins-de-semana"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>H\u00e1 quem procure o melhor restaurante para comer cachupa, sem saber que h\u00e1 receitas anci\u00e3s do prato s\u00edmbolo de Cabo Verde, \u00e0 solta, pelas ruas, todos os fins de semana, com guardi\u00f5es \u00e1vidos em contar hist\u00f3rias.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Leila Vaz, 30 anos, abre a esplanada pouco depois de o sol nascer e, como \u00e9 s\u00e1bado, junta lenha para acender uma fogueira, entre a estrada e o passeio, no centro da Praia, capital.<\/p>\n\n\n\n<p>Um panel\u00e3o empenado, meio queimado, cheio de \u00e1gua, vai fumegando para cozer o milho, muito milho, a hist\u00f3rica base alimentar cabo-verdiana, resiliente a todas as agruras de seca e fome, cravadas na mem\u00f3ria das nove ilhas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cUma receita de cachupa nunca vai ser igual a outra\u201d, garante, porque h\u00e1 v\u00e1rios ingredientes em jogo por cima do milho, legumes de um lado, peda\u00e7os de carne de porco do outro: \u201cn\u00e3o vou dizer, a minha receita \u00e9 a minha receita, \u00e9 um segredo que n\u00e3o pode ser revelado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u201cm\u00e3ozada\u201d secreta foi-lhe ensinada pela m\u00e3e, em Achada Monte Negro, Santa Cruz, zona rural da ilha de Santiago, quando Leila tinha 15 anos \u2013 e a m\u00e3e j\u00e1 tinha aprendido \u201ccom a m\u00e3e dela\u201d, tudo da terra, nada de produtos embalados.<\/p>\n\n\n\n<p>Rua acima, junto a outra fogueira, h\u00e1 mais um panel\u00e3o de combate \u00e0 beira da estrada e Dion\u00edsia de Pina, 42 anos, segue uma receita da sua ilha, Fogo, que tem refinado h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas, desde crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPrimeiro, o milho, depois o feij\u00e3o, de diferentes qualidades &#8211; incluindo o feij\u00e3o sapatinha -, junta-se o toucinho e o resto da carne de porco, cenoura e ab\u00f3bora\u201d, descreve, rodeada de caixas com outros ingredientes.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, parece que aqui tamb\u00e9m h\u00e1 segredo: um montinho de brasas ao lado do panel\u00e3o aquece uma frigideira com cebola, num caldo escuro, para juntar \u00e0 cachupa, que ainda h\u00e1 de levar um tempero mo\u00eddo antes de ser servida.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode ser comparada por uns \u00e0 feijoada, por outros ao cozido \u00e0 portuguesa, certo \u00e9 que leva a manh\u00e3 inteira a fazer: o milho demora a cozer e depois h\u00e1 o momento certo para juntar cada um dos outros ingredientes \u2013 e alguns, como a carne, pedem uma prepara\u00e7\u00e3o pr\u00e9via, reporta \u00e0 Lusa.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2017, Cabo Verde conseguiu entrar no Guiness, livro dos recordes, ao cozinhar, no centro da Praia, a maior cachupa do mundo, com seis toneladas, distribu\u00edda a milhares de pessoas no local.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 beira da estrada de S\u00e3o Filipe, Sofia Semedo, 32 anos, aproveitou a tradi\u00e7\u00e3o de fins de semana para incluir o prato no menu da esplanada que reabriu, depois de a cunhada a fechar e emigrar para os A\u00e7ores.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs hamb\u00fargueres tamb\u00e9m vendem, mas aqui todos gostam mais da cachupa. Nem se compara. E compram em grande quantidade, para guardar e depois refogar\u201d, nos dias seguintes, descreve, enquanto corta legumes para o panel\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E ser\u00e1 que uma casa que prepara \u2018fast food\u2019 \u00e0 beira da estrada pode improvisar outro tipo de cachupa, por exemplo, com esparguete em vez de milho?<\/p>\n\n\n\n<p>Sofia n\u00e3o percebe a pergunta, mesmo depois de a ter ouvido bem, e, finalmente, desfaz-se em gargalhadas e chama as colegas face ao absurdo: \u201cAi, cachupa sem milho, n\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a cachupa \u00e9 a rainha da gastronomia de Cabo Verde, o milho \u00e9 rei.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando era menino, o jantar era sempre cachupa e o pequeno-almo\u00e7o [do dia seguinte] era o refogado\u201d, conta Kalu, \u2018nominho\u2019 de Carlos Moreira, 64 anos, que cresceu com a cachupa \u2013 uma express\u00e3o usada entre muitos cabo-verdianos mais velhos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAinda \u00e9 assim no interior\u201d, onde ainda se planta milho e criam porcos, mas n\u00e3o na cidade, onde o arroz ou as massas s\u00e3o a solu\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida e leve: \u201co milho \u00e9 mais pesado e, ao s\u00e1bado, n\u00e3o trabalhamos, estamos em casa, com a fam\u00edlia\u201d e o est\u00f4mago agradece uma digest\u00e3o tranquila, descreve, enquanto espera que lhe encham o prato.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 s\u00e3o quase 13:00 e na esplanada de Dion\u00edsia h\u00e1 gente impaciente.<\/p>\n\n\n\n<p>Manuel Varela \u00e9 o primeiro a ser servido, com duas caixas de pl\u00e1stico para levar, ao pre\u00e7o de 250 escudos (2,27 euros) cada por\u00e7\u00e3o, medidas com um prato bem cheio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cComo em S\u00e3o Vicente \u00e9 [tradicional] a cavala, aqui \u00e9 a cachupa\u201d, diz, num retrato da diversidade gastron\u00f3mica das ilhas \u2013 mesmo na cachupa, h\u00e1 quem junte s\u00f3 peixe, h\u00e1 quem a fa\u00e7a mista, mas junto a cada panel\u00e3o impera a carne de porco, a mais procurada.<\/p>\n\n\n\n<p>De tal maneira que o \u00fanico homem que surge a cozinhar cachupa \u00e0 beira da estrada de S\u00e3o Filipe, j\u00e1 perto do Est\u00e1dio Nacional, entrou na arte dominada por mulheres, porque a fam\u00edlia j\u00e1 tinha um neg\u00f3cio de carne.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO porco d\u00e1 tanta coisa que fazer cachupa foi o passo seguinte\u201d, explica Isa\u00edas Gomes, 38 anos, de volta de um panel\u00e3o, que, como os outros, pode servir entre 40 a 50 pratos em cada s\u00e1bado.<\/p>\n\n\n\n<p>Na esplanada de Leila, uma das doses vai para o propriet\u00e1rio, Renato Semedo, que coloca \u2018posts\u2019 da cachupa de s\u00e1bado na p\u00e1gina do estabelecimento nas redes sociais, ligadas a um retrato mais global.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cL\u00e1 onde estejam, a di\u00e1spora cabo-verdiana tamb\u00e9m tem a tradi\u00e7\u00e3o de a cozinhar, aos s\u00e1bados\u201d, referiu, para mostrar que a cachupa \u00e9 mais que um prato, tal como Cabo Verde \u00e9 mais que um arquip\u00e9lago no Atl\u00e2ntico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 quem procure o melhor restaurante para comer cachupa, sem saber que h\u00e1 receitas anci\u00e3s do prato s\u00edmbolo de Cabo Verde, \u00e0 solta, pelas ruas, todos os fins de semana, com guardi\u00f5es \u00e1vidos em contar hist\u00f3rias. 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