{"id":2013,"date":"2025-03-10T18:28:42","date_gmt":"2025-03-10T18:28:42","guid":{"rendered":"https:\/\/radiocomercial.cv\/?p=2013"},"modified":"2025-03-10T18:28:43","modified_gmt":"2025-03-10T18:28:43","slug":"projecto-procura-musicos-que-salvem-instrumento-cabo-verdiano-da-extincao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radiocomercial.cv\/?p=2013","title":{"rendered":"Projecto procura m\u00fasicos que salvem instrumento cabo-verdiano da extin\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Domingos Fernandes fez carreira militar, com forma\u00e7\u00e3o em Cuba e Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, mas a hist\u00f3ria reservou-lhe um destino diferente, como um dos \u00faltimos guardi\u00f5es da cimboa, num projeto para evitar que o instrumento cabo-verdiano desapare\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A oficina ocupa todo o terra\u00e7o da sua casa em S\u00e3o Domingos, arredores da cidade da Praia, onde \u00e9 conhecido pelo nome de artes\u00e3o, mestre Pascoal, que desde 2006 j\u00e1 ensinou 400 pessoas a encontrar as mat\u00e9rias-primas e a construir o instrumento.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece um violino na forma mais simples: o corpo \u00e9 a caba\u00e7a seca (\u201cbule\u201d) de uma ab\u00f3bora amarga que ningu\u00e9m come, as cordas s\u00e3o feitas de rabo de cavalo ou crina e a pele \u00e9 recolhida de uma cabra n\u00e3o muito velha, nem muito nova, para ter o som perfeito, explica o artes\u00e3o, entre as bancadas da oficina.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas caracter\u00edsticas transformam a lista de materiais numa hist\u00f3ria complexa de resili\u00eancia para se chegar a uma cimboa genu\u00edna, tal a exig\u00eancia e aten\u00e7\u00e3o que se imp\u00f5e.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o haver\u00e1 duas iguais. N\u00e3o nos podemos dar ao luxo de fazer um bra\u00e7o muito alongado se n\u00e3o tivermos rabo de cavalo que chegue \u00e0s duas extremidades\u201d, exemplificou.<\/p>\n\n\n\n<p>Dos muitos formandos de Pascoal, poucos ficaram para perpetuar esta arte: a emigra\u00e7\u00e3o levou quase todos os que, em 2022, entraram no projecto do Instituto do Patrim\u00f3nio Cultural (IPC) com apoio do programa Procultura, do Cam\u00f5es \u2013 Coopera\u00e7\u00e3o Portuguesa e Uni\u00e3o Europeia (UE).<\/p>\n\n\n\n<p>Com estas partidas, \u201cpercebeu-se que valeria a pena redefinir o perfil\u201d, explica a diretora da \u00e1rea de patrim\u00f3nio imaterial do IPC, Carla Semedo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, al\u00e9m de incluir desempregados, deve come\u00e7ar nas pr\u00f3ximas semanas a forma\u00e7\u00e3o do mestre Pascoal para m\u00fasicos e professores, envolvendo escolas e associa\u00e7\u00f5es musicais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO projeto vai terminar em abril e importa que haja continuidade, sustentabilidade, que n\u00e3o passe s\u00f3 pelo IPC, mas pela sociedade civil, pelas din\u00e2micas musicais e art\u00edsticas\u201d, aponta Carla Semedo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDeixar algumas cimboas nas escolas \u00e9 um passo para que, juntamente com o piano ou a guitarra, tamb\u00e9m possa ser ministrada\u201d em aulas de m\u00fasica, acrescenta.<\/p>\n\n\n\n<p>O instrumento chegou \u00e0s ilhas \u201cna mem\u00f3ria dos negros africanos, trazidos do continente\u201d, na \u00e9poca da escravatura, explica Domingos Fernandes, sendo o mais antigo instrumento de corda do arquip\u00e9lago, o \u00fanico sem origem na Europa ou nas Am\u00e9ricas.<\/p>\n\n\n\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o manda que acompanhe os grupos de batuque, mas tem potencial para se alinhar com outros g\u00e9neros musicais e essa ser\u00e1 uma das chaves para que n\u00e3o desapare\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO instrumento n\u00e3o tem limita\u00e7\u00e3o, quem tem limita\u00e7\u00e3o \u00e9 o homem\u201d, refere, ao recordar mem\u00f3rias de juventude com festas improvisadas que inclu\u00edam voz e cimboa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO que \u00e9 preciso \u00e9 talento\u201d, s\u00f3 que \u201cos jovens querem coisas com resultado imediato\u201d e este n\u00e3o \u00e9 um instrumento f\u00e1cil no primeiro encontro.<\/p>\n\n\n\n<p>Domingos Fernandes puxa pela \u00faltima que fabricou, uma encomenda preparada para a embaixada cabo-verdiana no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Para quem nunca pegou numa, \u00e9 dif\u00edcil arrancar-lhe um som: o arco desliza na corda, mas em sil\u00eancio, at\u00e9 que o mestre artes\u00e3o o passa por resina e assume o comando, porque h\u00e1 uma posi\u00e7\u00e3o certa para tocar \u2013 e eis que as melodias come\u00e7am a sair.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da forma\u00e7\u00e3o em artilharia terrestre e mec\u00e2nica, o antigo capit\u00e3o cabo-verdiano que completa 65 anos em abril sempre preferiu o artesanato e ainda estava no ativo, em 2006, quando aprendeu a construir cimboas com Mano Mendes \u2013 dois anos antes da morte da figura ent\u00e3o mais ligada ao instrumento.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEstou otimista\u201d quanto ao futuro da cimboa, diz Pascoal, lembrando o ditado: \u201c\u00e1gua mole em pedra dura\u2026 eu tenho um quarteto e, nos concertos, metemos sempre uma ou duas m\u00fasicas com cimboa\u201d, descreve.<\/p>\n\n\n\n<p>De volta \u00e0 sede do IPC, na Praia, Carla Semedo mostra dezenas de cimboas constru\u00eddas pelo mestre artes\u00e3o e que est\u00e3o guardadas para a forma\u00e7\u00e3o que est\u00e1s prestes a arrancar.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de alargar o leque de formandos, capacitar m\u00fasicos e entidades da \u00e1rea art\u00edstica, o projeto apoiado pelo Procultura dever\u00e1 condensar conhecimentos recolhidos numa publica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e, espera-se, promover um espet\u00e1culo, avan\u00e7a \u00e0 Lusa.<\/p>\n\n\n\n<p>Carla Semedo est\u00e1 entre quem acredita no \u201cpotencial de cria\u00e7\u00e3o e combina\u00e7\u00e3o\u201d com outros estilos musicais, como resultado das oficinas de execu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica das pr\u00f3ximas semanas, uma esperan\u00e7a para colocar a cimboa em palco e, assim, dar futuro a uma sonoridade que se arrisca a desaparecer.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Domingos Fernandes fez carreira militar, com forma\u00e7\u00e3o em Cuba e Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, mas a hist\u00f3ria reservou-lhe um destino diferente, como um dos \u00faltimos guardi\u00f5es da cimboa, num projeto para evitar que o instrumento cabo-verdiano desapare\u00e7a. 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