{"id":2292,"date":"2025-07-30T18:23:38","date_gmt":"2025-07-30T18:23:38","guid":{"rendered":"https:\/\/radiocomercial.cv\/?p=2292"},"modified":"2025-07-30T18:23:39","modified_gmt":"2025-07-30T18:23:39","slug":"nha-balila-diz-que-era-janota-de-coxa-redonda-e-se-deslumbrava-com-batuque-no-terreiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radiocomercial.cv\/?p=2292","title":{"rendered":"Nha Balila diz que era janota de \u201ccoxa redonda\u201d e se deslumbrava com batuque no terreiro"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Nha Balila, cantadeira de batuque e fina\u00e7on, conhecida por \u201cmeio mundo\u201d, com mem\u00f3ria f\u00e9rtil, recorda um pouco da sua vida e diz que na mocidade era \u201cjanota de coxa redonda\u201d e se deslumbrava com o batuque no terreiro.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Abo m\u00f3 qui bu txoma?&#8221; (como te chamas? em portugu\u00eas), foi assim, toda espevitada,&nbsp;que Nha Balila recebeu a equipa da Inforpress para um momento de conversa, em que esta mulher cega de nascen\u00e7a, 95 anos, que n\u00e3o enxerga com os olhos, mas v\u00ea com o cora\u00e7\u00e3o, falou um pouco de si, das suas m\u00e1goas, alegrias e preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Isidora Semedo Correia, \u00e9 assim que se chama, recebeu a alcunha de Balila pelos seus pais, que significa \u201cbali pena\u201d (vale a pena, em portugu\u00eas), conforme explicou, nasceu a 12 de Dezembro de 1929, na localidade de Serra Malagueta, no concelho de Santa Catarina, interior da ilha de Santiago.<\/p>\n\n\n\n<p>Proveniente de uma fam\u00edlia rural, \u00e9 filha de Paulina Tavares e de Raimundo Semedo, pais de 12 filhos, dos quais quatro cegos, entre eles Nha Balila, que na sua mocidade, conta, era bonita \u201cdi coxa rodonda\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cContrariamente ao que as pessoas pensam, somos cegos de nascen\u00e7a. Sa\u00edmos assim dentro do ventre da nossa m\u00e3e. N\u00e3o nos empurraram para cair nem nos furaram os olhos\u201d, exteriorizou.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixou claro que a sua condi\u00e7\u00e3o de invisual nunca lhe impediu de fazer absolutamente nada, apanhava \u00e1gua nas fontes, transportando a lata em cima da cabe\u00e7a, lavava roupa na selha, cozinhava, pilava o milho, fazia cuscuz, apanhava lenha e ordenhava cabras e vacas, entre muitas outras tarefas da casa e do campo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAs pessoas que n\u00e3o podem ver tamb\u00e9m conseguem executar tarefas, fazer as suas coisas. N\u00e3o somos in\u00fateis, temos cora\u00e7\u00e3o, ideias e entendimento. Era uma jovem janota, coxa redonda, peito e costas bonitos, batucadeira, tocadeira de ferro e gaita (\u2026) um pinta manta na nha tempo\u201d, exteriorizou, com alegria no semblante, ostentando os seus caracter\u00edsticos \u00f3culos escuros que escondem seus olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Cantadeira de batuque e fina\u00e7on, tradi\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 dan\u00e7a ou a um ambiente de festa, Nha Balila come\u00e7ou a se interessar pela pr\u00e1tica desde tenra idade, fazendo companhia aos pais que animavam as festas com batuque em Serra Malagueta.<\/p>\n\n\n\n<p>No tempo de crian\u00e7a foi para escola, mas n\u00e3o continuou devido ao seu problema de vis\u00e3o, mas recorda, entretanto, que brincou como qualquer outro menino.<\/p>\n\n\n\n<p>Nha Balila vem para a cidade da Praia nos anos 60, passa a residir em Tira Chap\u00e9u, arrabalde da cidade, onde \u00e9 por todos conhecida, sabem onde mora, ali\u00e1s \u00e9 f\u00e1cil chegar l\u00e1, ningu\u00e9m se engana da casa que ostenta seu retrato pintado numa das partes da parede exterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas antes de vir para a cidade da Praia, foi para Angola, mais propriamente a cidade de Cabinda, com um senhor da ilha do Fogo, com quem era casada e do qual teve um filho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Regressa quatro anos depois a Cabo Verde e fixa-se na Assomada, na localidade de Pedra Barro, porque o marido n\u00e3o quis morar mais em Serra Malagueta.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00facida, Nha Balila conhece &#8220;meio mundo&#8221; e j\u00e1 viajou tamb\u00e9m para outros pa\u00edses como, Mo\u00e7ambique, S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe, onde fez quase todo o tipo de trabalho como contratada nas ro\u00e7as, Holanda, Portugal e Estados Unidos da Am\u00e9rica, recordando \u201cbons tempos e bons momentos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cVim da Am\u00e9rica h\u00e1 pouco tempo. Cantei batuque em sete zonas. Fui bem-recebida. Fiquei encantada. N\u00e3o vejo com os olhos, mas contemplo e sinto com o cora\u00e7\u00e3o a amabilidade das pessoas. Cabo-verdianos ta lapi na mi ta txora (express\u00e3o emocional, manifesta\u00e7\u00e3o de carinho, abra\u00e7o apertado)\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, contando as suas ang\u00fastias e dissabores, nesta fase de vida, disse que as pessoas pensam que Nha Balila \u00e9 bala, mas Nha Balila \u00e9 \u201cbali pena\u201d: toca ferro na gaita, canta e dan\u00e7a batuque, d\u00e1 com torno e muito mais, mas desejava ver.<\/p>\n\n\n\n<p>Das m\u00e1goas, conta o \u201cdesrespeito\u201d de alguns vizinhos para com ela, sendo muitas vezes agredida, como apontou, com bofetada, se estiver \u00e0 porta de casa, tamb\u00e9m \u00e1gua atirada ao rosto, despejo de \u00e1gua suja e urina \u00e0 porta da sua casa, entre outras queixas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNunca fiz mal a ningu\u00e9m. Falo com a minha boca e a minha l\u00edngua (\u2026) ent\u00e3o as pessoas dizem que sou atrevida, dirigindo-me tamb\u00e9m outros insultos. Sou cega, mas sou gente. Os deficientes s\u00e3o pessoas, n\u00e3o bichos, cabra, porco, burro ou vaca. N\u00e3o devemos ser desprezados, d\u00f3i\u201d, exteriorizou em tom de desagrado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cBali pena\u201d como se designa, lamentou tamb\u00e9m o facto de lhe ter sido diminu\u00eddo, em 2003, a pens\u00e3o de dez mil para seis mil escudos, que diz n\u00e3o chegar para cobrir as despesas com luz, \u00e1gua, mormente alimenta\u00e7\u00e3o, pelo que conta com a benevol\u00eancia de algumas pessoas amigas e da filha, de 72 anos, que \u00e9 peixeira.<\/p>\n\n\n\n<p>A prop\u00f3sito fez quest\u00e3o de mencionar o nome da governante que, na altura, lhe retirou parte do seu p\u00e3o, a qual, conforme disse, tem muita m\u00e1goa e n\u00e3o lhe perdoa.<\/p>\n\n\n\n<p>Pulando essa parte, perguntado sobre gostos e sabores, no meio de gargalhadas, respondeu que gosta de cachupa, papa de milho com leite, massa de milho com galinha e \u201cmuitas outras comidas saborosas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A meio da conversa, esta figura popular da cidade da Praia fez uma demonstra\u00e7\u00e3o de batuque, cuja letra e m\u00fasica foi criada por ela, intitulada \u201cDentu di algu\u00e9m k\u00ea algu\u00e9m\u201d, criticando situa\u00e7\u00f5es menos boas da sociedade, almejando, ao mesmo tempo, \u201crumo e orienta\u00e7\u00e3o\u201d aos jovens, que mais tarde, conforme prognosticou, v\u00e3o conduzir os destinos desta terra, avan\u00e7a \u00e0 Inforpress.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO meu batuque anda mundo inteiro. H\u00e1 muito tempo que n\u00e3o fa\u00e7o uma m\u00fasica de batuque, mas est\u00e3o registadas na minha mem\u00f3ria. Com toda essa maldade no mundo e em Cabo Verde, se as coloco para fora sou capaz de ser liquidada, porque homens e mulheres n\u00e3o est\u00e3o a comportar-se bem\u201d, comentou, advertindo que a mulher tem dois rostos e tem que se valorizar.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois rostos, Nha Balila, como assim? ao que retorquiu: \u201cPara dizer? Olha que eu digo\u2026 Um dos rostos fica no alto do pesco\u00e7o e o outro entre as pernas, mas as mulheres sem vergonha, n\u00e3o est\u00e3o a dar valor a este \u00f3rg\u00e3o sexual feminino. Cabra dja tomba bodi, brio dja mata baca e dinhero f\u00e1xi sta na moda\u201d, reprovou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAh caramba.&nbsp; Ess k\u00ea Balila propi. N\u00e3o v\u00ea com os olhos, mas v\u00ea com o cora\u00e7\u00e3o. Conberso sabi ladron di tempo, devagar se vai ao longe, pouco melhor que nada, indjuto mori ferferi fica. Ami Balila um ka tem medo, um ka tem temor, ka medo mar ki tem tibaron ki fari lagoa ki tem tainha\u201d, expressou a mulher a quem faltam cinco anos para chegar aos 100.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nha Balila, cantadeira de batuque e fina\u00e7on, conhecida por \u201cmeio mundo\u201d, com mem\u00f3ria f\u00e9rtil, recorda um pouco da sua vida e diz que na mocidade era \u201cjanota de coxa redonda\u201d e se deslumbrava com o batuque no terreiro. &#8220;Abo m\u00f3 qui bu txoma?&#8221; (como te chamas? em portugu\u00eas), foi assim, toda espevitada,&nbsp;que Nha Balila recebeu<br \/><a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/radiocomercial.cv\/?p=2292\">+ Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2293,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-2292","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"featured_image_src":"https:\/\/radiocomercial.cv\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Nha_Balila-2025.jpg","featured_image_src_square":"https:\/\/radiocomercial.cv\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Nha_Balila-2025.jpg","author_info":{"display_name":"Radio Comercial","author_link":"https:\/\/radiocomercial.cv\/?author=2"},"rbea_author_info":{"display_name":"Radio Comercial","author_link":"https:\/\/radiocomercial.cv\/?author=2"},"rbea_excerpt_info":"Nha Balila, cantadeira de batuque e fina\u00e7on, conhecida por \u201cmeio mundo\u201d, com mem\u00f3ria f\u00e9rtil, recorda um pouco da sua vida e diz que na mocidade era \u201cjanota de coxa redonda\u201d e se deslumbrava com o batuque no terreiro. &#8220;Abo m\u00f3 qui bu txoma?&#8221; (como te chamas? em portugu\u00eas), foi assim, toda espevitada,&nbsp;que Nha Balila recebeu<br><a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/radiocomercial.cv\/?p=2292\">+ Read More<\/a>","category_list":"<a href=\"https:\/\/radiocomercial.cv\/?cat=6\" rel=\"category\">Noticias<\/a>","comments_num":"0 comments","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/radiocomercial.cv\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2292","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/radiocomercial.cv\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/radiocomercial.cv\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radiocomercial.cv\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radiocomercial.cv\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2292"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/radiocomercial.cv\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2292\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2294,"href":"https:\/\/radiocomercial.cv\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2292\/revisions\/2294"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radiocomercial.cv\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2293"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/radiocomercial.cv\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2292"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/radiocomercial.cv\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2292"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/radiocomercial.cv\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2292"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}